Bebi, dirigi, atropelei, matei, paguei fiança, tô em casa
03 de Janeiro de 2019 - Fonte:Sirlei Theis
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  • Rafaela atropelou, matou e agora está em casa, esperando a poeira baixar e a vida voltar ao normal. A motorista saiu da balada, estava alcoolizada e acabou atropelando três pessoas. Era  noite do dia 30 de setembro de 2017 na cidade de São Paulo. Sim, isso mesmo, 2017. O fato é que 1 ano, 2 meses e 23 dias depois a cena se repetiu, desta vez em Cuiabá. A mesma história, o mesmo enredo de terror. Era madrugada do dia 23 de dezembro de 2018, a bióloga Rafaela Screnci da Costa Ribeiro, de 33 anos, voltava de uma balada e de acordo com imagens de vídeos que mostram ela no interior da casa noturna, estava alcoolizada. Com o carro em alta velocidade atropelou três jovens na avenida Isaac Póvoas, em Cuiabá/MT.

     

    O fato é que seja a motorista Talita Sayuri Tamashiro, de 28 anos, em São Paulo, ou Rafaela, em Cuiabá, estes não foram e não são casos isolados. Todos os dias nos mais variados lugares e situações, pessoas estão perdendo a vida, mortes que acabam virando mais uma estatística. Números que colocam o trânsito brasileiro como o quarto mais violento do continente americano, de acordo com os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

     

    “ Trânsito brasileiro é o quarto mais violento do continente americano”

     

    Quando decidiu pegar o carro naquela noite Rafaela Screnci da Costa Ribeiro selou o destino de três jovens. Myllena de Lacerda Inocêncio, de 22 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu no local; o cantor sertanejo Ramon Alcides Viveiros, de 25 anos, morreu no hospital 5 dias após o acidente e a universitária Hya Giroto Santos, de 21 anos, continua internada em estado grave.

     

    Para os familiares fica o sofrimento e a sensação de impunidade, principalmente quando os  culpados pagam suas fianças e respondem pelo crime em liberdade porque a legislação brasileira é muito branda e confusa. Um acidente de trânsito que ocorre em razão de um deslizamento na pista ou outra situação semelhante é diferente de um acidente que ocorre quando o motorista ingeriu bebida alcoólica e resolve dirigir. São situações totalmente diferentes que não poderiam receber o mesmo tratamento, mas infelizmente é o que acontece no Brasil.

     

    “Para os familiares fica o sofrimento e a sensação de impunidade, principalmente quando os  culpados pagam suas fianças e respondem pelo crime em liberdade”

     

    Em tempo que se discute muito o estatuto do desarmamento, essa combinação que tem matado tanto quanto, passa despercebida, direção, álcool e celular, um trio que tem  dizimado milhares de vidas a cada ano no Brasil. Pesquisas mostram que mais de 55% das mortes no trânsito ocorrem pela mistura do álcool e volante e o mais grave nisso tudo é que as penas no Brasil para esse tipo de crime são tão brandas que todos sabem que se o criminoso tiver um pouco de dinheiro que lhe permita pagar um bom advogado e uma fiança, responderá pelo crime em liberdade e dificilmente ira para a prisão, pois a maioria dos casos são tratados como crime culposo e assim não são submetidos ao Tribunal do Juri. Tudo isso ainda é agravado pela morosidade do judiciário, onde os processos se arrastam por longos e longos anos para ao final os familiares verem a pena  convertida em multa e serviços sociais.

     

    O Trânsito brasileiro em 2016 registrou 37.345 mortes e mais de 600 mil pessoas que  ficaram com sequelas permanentes, ou seja, são 102 mortes por dia, o que mostra mais de 4 mortes por hora. Importante salientar ainda que no Brasil 60% dos leitos hospitalares do Sistema único de Saúde (SUS) são ocupados por vítimas de acidente de trânsito e nos Centros cirúrgicos mais de 50% também são utilizados por vítimas do trânsito.

     

    Myllena, Ramon não voltarão mais para casa, Hya ainda luta pela vida. É bem provável que  Rafaela Screnci da Costa Ribeiro volte a sua rotina em muito breve. Novas baladas virão, o primeiro gole de muitos e a tragédia tão anunciada pode sim voltar a acontecer.

     

    Precisamos de penas severas. Rafaela deveria estar presa sem direito a fiança. Mas, enquanto isso não acontece, vamos rezar para que o próximo jovem alcoolizado tenha consciência do  risco que está produzindo e, ao invés de virar a chave no contato, chame um Uber, um táxi  ou ligue para alguém da família ir lhe buscar. Só assim vamos poder dormir tranquilos enquanto nossos filhos se divertem nas muitas baladas Brasil.

     

    Ao Poder Público, clamamos por penas mais severas e julgamentos mais rápidos.

     

     

    Sirlei Theis é advogada, especialista em Gestão Pública.

    Email: sirleitheis@gmail.com